Captulo 11

MOTIVAO PARA A REALIZAO

Um dos construtos que tem sido bastante estudado por pesquisadores no campo da Psicologia do 
Desenvolvimento, Psicologia da Personalidade e Psicologia Social  o de motivao para a 
realizao (<achievement motivation), introduzido e aprofundado por David McClelland (1953; 
1955; 1961; 1971a; 1971b). Motivao para a realizao refere-se  motivao para sair-se bem, ter 
sucesso, realizar algo, ou competir com padres de excelncia.  obviamente um trao de 
personalidade de bastante interesse em qualquer cultura preocupada com desenvolvimento. 

FUNDAMENTOS TERICOS 
McClelland inspirou-se na famosa tese de Max Weber, exposta na obra A tica Protestante e o 
Esprito do Capitalismo (1904). Weber props a tese de que a Reforma Protestante produzira uma 
evoluo caracterolgica, infundindo um esprito mais vigoroso em trabalhadores e empreendedores, 
que teria levado ao capitalismo industrial moderno. Weber havia notado que o advento do 
protestantismo na Alemanha, Sua, Inglaterra e Holanda coincidira com o advento do capitalismo e 
rpido 
desenvolvimento econmico. Weber observou que as moas protestantes trabalhavam mais rapidamente e 
com mais zelo do que as catlicas, que elas mais freqentemente economizavam dinheiro para objetivos 
futuros. Da mesma forma, os protestantes subiam mais rpido no mundo dos negcios do que os catlicos, 
embora a vantagem financeira inicial fosse geralmente dos catlicos. 
Weber descobriu nas c r e n  a s protestantes certas idias que conduziriam ao esprito empreendedor e 
argumentou ento que o movimento religioso teria causado o desenvolvimento econmico. O protestantismo 
em geral pregava que a salvao no era obtida atravs de uma retirada monstica do mundo, nem meramente 
pela observncia escrupulosa dos ritos da Igreja, nem por boas obras. Cada homem teria um chamado e o 
bom desempenho dos deveres impostos por esse chamado resultaria em acmulo de riqueza. Por Outro lado, o 
protestanismo era extremamente asctico e proibia o uso dessa riqueza para desfrutar prazeres, de forma que a 
nica coisa que restava era investir o lucro em novos empreendimentos. No calvinismo, havia uma doutrina 
que,  primeira vista, poderia nos parecer incompatvel com o desenvolvimento econmico 
 a doutrina da predestinao. Afirma esta doutrina que os eleitos, predestinados  salvao, esto salvos 
desde o comeo dos tempos e nada que o ser humano possa fazer alteraria os desgnios de Deus com relao  
sua salvao. Calvino percebeu que esta doutrina, se mal interpretada, poderia conduzir  preguia, por isso 
recomendava que ela no fosse enfatizada nas pregaes ao povo. No entanto, a doutrina da predestinao 
contm outros elementos: embora ningum possa atingir a salvao se no pertencer ao grupo dos eleitos, 
pode-se criar a convico de salvao. Nenhum homem pode saber se ser salvo, mas os eleitos poderiam ser 
reconhecidos por certos sinais exteriores, como simplicidade, piedade, devoo ao dever e auto-sacrifcio. 
Havia tambm a crena de que Deus fazia seus eleitos prosperarem, de forma que o sucesso no mundo dos 
negcios podia ser tomado como sinal de que a pessoa pertencia ao grupo dos eleitos. Esta famosa tese de 
Weber estabelece uma ligao entre dois fenmenos de mbito social amplo  a reforma protestante e o esprito 
do capitalismo. A originalidade da contribuio de McClelland consiste em ter sugerido mecanismos 
psicolgicos intervenientes, como vemos na figura da pgina 260: 
258 
259 
A evidncia mais forte para esses mecanismos intervenientes sugeridos por McClelland proveio do 
estudo de M. Winterbottom (1953), a respeito de caractersticas comportamentais de mes de 
meninos com alta motivao para a realizao e de mes de meninos com baixa motivao para a 
realizao. Este estudo ser discutido posteriormente, ao tratarmos dos antecedentes familiares da 
motivao para a realizao. 
McClelland (1961) testou a relao entre protestantismo e nvel de desenvolvimento econmico. 
Comparou sistematicamente o desenvolvimento econmico em 1950, de todos os pases da zona 
temperada. Usou como ndice de desenvolvimento o consumo per capita de Kw/h de eletricidade. A 
diferena foi esmagadoramente a favor dos pases protestantes. No entanto, esses resultados so 
difceis de se interpretar, pois, como em todo estudo correlacional, no h base slida para se 
inferirem relaes de causa e efeito. As diferenas encontradas poderiam ser devidas a outras 
variveis associadas com protestantismo; por exemplo, tem-se argumentado que os pases 
protestantes estudados so mais ricos em recursos naturais, como fontes de gua para energia 
eltrica. 
Outra maneira de testar a relao entre a motivao para a realizao e o desenvolvimento 
econmico, engenhosa- mente arquitetada por McClelland, consistiu em avaliar estrias contidas nos 
livros de leitura de crianas na fase de 8 a 10 anos, como uma medida de motivao para a 
realizao. Partindo da premissa de que as estrias infantis contm os valores que uma cultura 
provavelmente instila em seus futuros cidados, McClelland achou que as estrias revelariam o grau 
de motivao para a realizao enfatizado em uma cultura. McClelland estudou 23 pases, cujas 
estrias dos anos 1920 a 1929 foram avaliadas e 40 pases para o estudo dos anos 1946-1950. 
Supe-se tambm que a motivao para a realizao entre 1920 e 1929 correlacionaria alta e 
positivamente com desenvolvi- 
mento econmico entre 1946 e 1950, pois as crianas que por volta de 1920 a 1929 liam as estrias se teriam 
tornado os homens de negcio por volta de 1946 a 1950. Se as estrias indicaram que a fase de 1920 a 1929 
enfatizou um alto grau de motivao para a realizao, o desenvolvimento econmico de 1946 a 1950 seria 
grande. Por outro lado, a motivao para a realizao em 1946-1950 no correlacionaria com nvel de 
desenvolvimento econmico em 1920-1929, porque a motivao posterior ao desenvolvimento no poderia ser 
causa do desenvolvimento. A medida de desenvolvimento econmico usada por McClelland aqui foi a 
unidade internacional, definida por CoIlin Clark (1957). 
Os resultados indicaram que as correlaes entre nvel de motivao para a realizao em 1925 e ndices de 
desenvolvimento econmico em 1946-1950 foram positivas. 
Apesar das dificuldades de mensurao das variveis envolvidas, vemos que um padro tem emergido 
consistente- mente  o de relao entre nvel de motivao para a realizao e desenvolvimento econmico. 
McClelland testou sua hiptese tambm utilizando dados de culturas antigas: Verificou que a Espanha atingiu 
o auge do desenvolvimento econmico no sculo XVI e a literatura espanhola (obras literrias como Dom 
Quixote) revela maior motivao para a realizao nos lois sculos que precederam este auge do que 
posteriormente. McClelland tambm estudou amostras de literatura inglesa nos perodos de 1400 at o incio da 
revoluo industrial. Verificou que o nvel de motivao para a realizao descreve uma curva 
extraordinariamente semelhante  curva de desenvolvimento econmico, com a diferena que a curva de 
motivao para a realizao est geralmente 30 a 50 anos na frente, isto , alta motivao para a realizao em 
um perodo  seguida por alto desenvolvimento econmico 30 a 50 anos mais tarde. 
Outros testes engenhosos foram arquitetados por McCIelland, com relao  Grcia Antiga e  civilizao pr-
incaica no Peru. Para a Grcia Antiga, entre os anos de 900 e 100 antes de Cristo, os nveis de motivao para a 
realizao podiam ser estimados a partir da literatura, porm o desenvolvimento econmico seria obviamente 
difcil de avaliar numa sociedade que no deixou dados estatsticos a respeito. McClelland arquitetou o 
seguinte: A Grcia, naquele perodo, negociava principalmente com vinho e azeite de oliva e ambos eram 
260 
261 

Weber: Reforma protestante * Esprito do capitalismo 

McClelIand: 
Reforma 
Treinamento 
Alio motivao * Esprito 
do 

protestante 
precoce para 
para a 
capitolism
o 


a 
independncia 
realiza
o 



dos filhos 



transportados em vasos grandes de barro. Heichelheim (1938), um especialista em Grcia Antiga, 
elaborou uma lista de todos os lugares no Mediterrneo onde tais jarros foram encontrados. 
Arquelogos tambm dataram estes jarros de acordo com o sculo em que haviam sido feitos. 
Assim, era possvel estimar a rea total em que os gregos tinham negcios em um dado perodo, 
sabendo-se os locais e as datas dos jarros. O tamanho da rea de negcios forneceu uma medida, se 
bem que rude, do nvel de desenvolvimento econmico. Os resultados indicaram uma alta em 
motivao para a realizao nos anos que precederam perodos de alto desenvolvimento econmico. 
Se a Grcia Antiga  difcil de se estudar; em termos de motivao para a realizao e 
desenvolvimento econmico, mais ainda o seria o Peru pr-incaico, aproximadamente entre 800 e 
700 aC, pois no h fragmentos literrios por onde se avaliar o nvel de motivao para a realizao. 
McClelland avaliou o desenvolvimento cultural atravs da quantidade de edifcios pblicos 
construdos em vrios perodos no Peru, segundo o mtodo de Willey (1953). Como no havia 
material verbal para avaliar a motivao para a realizao, McClelland utilizou o mtodo de Aronson 
(1958), consistindo de avaliao de padres grficos e rabiscos que aparecem na decorao da 
cermica, especialmente nas urnas funerrias. No perodo histrico estudado, encontram-se duas 
pocas de grande desenvolvimento cultural (medido atravs do volume de edifcios pblicos) Estes 
perodos foram precedidos por altas em motivao para a realizao (medida atravs da avaliao 
dos desenhos das cermicas). Deve-se notar que o mtodo grfico de Aronson revelou correlaes 
positivas com a medida verbal projetiva de McClelland, que ser descrita posteriormente neste 
captulo, em uma amostra de estudantes universitrios norte-americanos. No entanto, quando 
McClelland obteve os dois tipos de medidas em estudantes do Brasil, Alemanha, Japo e ndia, 
nenhuma das correlaes foi significantemente diferente de zero (Brown, 1965). 
Uma avaliao atual da teoria de McClelland, segundo Brown (1965), leva  reformulao de sua 
hiptese inicial. O problema parece estar na relao entre protestantismo, treinamento de 
independncia em crianas e motivao para a realizao. Na sociedade norte-americana atual, os 
trs coexistem e  impossvel testar se o protestantismo causou mudanas na 
maneira de se treinarem crianas. A filiao religiosa em si no correlaciona atualmente com motivao para a 
realizao, de modo que a tendncia atual nos estudos de motivao para a realizao  deixar-se de lado a 
varivel protestantismo. Resta bastante evidncia para a associao entre motivao para a realizao e 
desenvolvimento econmico, no plano nacional, e para a associao entre motivao para a realizao e 
maneiras de criar crianas, no plano individual. 
O INSTRUMENTO DE MEDIDA DE MOTIVAO PARA A REALIZAO, DE MCCLELLAND 
McCIeIland criou uma medida para avaliar o grau de motivao para a realizao que  uma medida projetiva, 
do tipo temtico, consistindo de quatro figuras. A imaginao criativa do sujeito entra em jogo, porm o teste  
avaliado focalizando-se determinado tipo de contedo, contedo este referente  motivao para a realizao. 
Os detalhes do sistema de avaliao so apresentados em Atkinson et alii (1958). A validade do teste  
fornecida em termos de vrios estudos de validade de construto, em que so comparadas as respostas de 
grupos de sujeitos submetidos a diferentes tipos de instruo (condies neutras, relaxadas e ehciadoras de 
realizao (Lowell, 1950; Everett, 1959; Strodtbeck, 1958; French, 1955; Wendt, 1955). A fidedignidade pode ser 
obtida atravs de treinamento de avaliadores. McClelland recomenda que pesquisadores que pretendem usar o 
teste estudem o manual, avaliem sozinhos algumas estrias contidas no manual e verifiquem se suas 
avaliaes coincidem com as apresentadas no mesmo. Se no coincidirem, os avaliadores devero treinar mais, 
at que uma correlao de 0,90 seja obtida entre as avaliaes dadas no manual e as do pesquisador que est 
aprendendo a avaliar o teste. Assim, um teste que no  objetivo, no sentido em que inventrios de lpis e 
papel tm avaliao objetiva, pode, no entanto, alcanar um alto grau de f idedignidade. A ttulo de exemplo, 
apresentamos a seguir uma estria que recebe um escore alto de motivao para a realizao: 
Este rapaz est meditando seriamente. Ele  um estudante de segundo ano de universidade e chegou a uma 
crise intelectual. Ele no consegue se decidir. Est perturbado, 
262 
263 
preocupado. Ele est tentando reconciliar as filosofias de Descartes e Toms de Aquino  e nesta idade to 
jovem, dezoito anos. Ele leu vrios livros de filosofia e sente o peso do mundo sobre seus ombros. Ele quer 
apresentar uma sntese clara destas duas filosofias conflituantes, para satisfazer seu ego e receber 
reconhecimento acadmico por parte de seu professor. . (Brown, 1965) 
ANTECEDENTES FAMILIARES DA MOTIVAO 
PARA A REALIZAO 
Winterbottom (1953) obteve escores de motivao para a realizao usando o instrumento de 
medida desenvolvido por McClelland (Atkinson et alii, 1958), numa amostra de 29 meninos normais, 
de 8 a 10 anos de idade. A atitude da me com relao a independncia foi obtida a partir de um 
questionrio aplicado  me em situao de entrevista. Abaixo reproduzimos parte do questionrio, 
versando sobre demandas de independncia: 
Ao lado de cada afirmao h dois espaos em branco. No primeiro, ponha um X se for uma das coisas 
que voc deseja em seu filho, quando ele tiver dez anos de idade. No segundo espao em branco, escreva a 
idade aproximada com que voc pensa que seu filho dever ter aprendido esse comport ,9mento: 
X 10 Obedecer a sinais luminosos e outros sinais de 
trnsito quando sair sozinho. 
Esta me marcou isto como uma das coisas que desela em seu filho e espera que ele aprenda isto com a 
idade de 10 anos. 
Muitos livros tm sido escritos a respeito de como as mes devem lidar com os filhos, porm  surpreendente 
como temos pouca informao sobre o que as pessoas mais interessadas, as mes, realmente agem. Ns 
gostaramos que voc respondesse a estas perguntas, dizendo-nos o que voc acha que d mais certo, para o 
seu filho. 
Defender seus direitos quando brinca com outras crianas. 
Conhecer bem a zona em que mora, de forma que possa brincar sozinho onde quiser, sem se perder. 
Tomar parte nas conversas e interesses dos pais. Pendurar suas roupas e cuidar das coisas que possui... 
Os itens usados so provenientes de escalas desenvolvidas por Whiting e Sears, na Universidade de Harvard, 
e cada um dos itens foi reescrito em forma de uma restrio> em outra parte do questionrio. Por exemplo, o 
primeiro item da escala foi transformado em   No brigar com outras crianas para conseguir o que quer. 
Os meninos foram classificados em dois grupos, os de alta motivao para a realizao (AMR) e os de baixa 
motivao para a realizao (BMR), com base no teste projetivo de McClelland. 
Comparando-se as mes do AMR e BMR, os resultados revelaram que, embora o nmero total de exigncias 
feitas pelas mes dos meninos com AMR e com BMR no diferisse, as mes dos AMR esperavam que seus 
filhos se tornassem independentes muito mais cedo. Por exemplo, as mes do AMR esperam o dobro de 
comportamentos independentes aos oito anos do que as mes dos BMR. Vemos tambm que as mes dos 
AMR esperam que 60/o das demandas assinaladas tenham sido aprendidas aos sete anos, ao passo que as 
mes dos BMR esperam que apenas 33/o das demandas assinaladas tenham sido aprendidas nessa idade. As 
mes dos BMR tendem a assinalar maior nmero de restries em todas as idades. Como concluso geral, 
vemos que as mes dos AMR fazem demandas de independncia mais cedo do que as mes dos BMR. Viu-se 
tambm que as mes dos AMR fazem restries cedo, porm relaxam as mesmas a partir dos sete ou oito anos, 
quando esperam que seus filhos j tenham capacidade suficiente. Elas demonstram f na capacidade da 
criana, ao passo que as mes dos BMR continuam a restringi-los. Por exemplo, as mes dos AMR esperam 
que eles conheam o caminho na zona em que moram e uma vez que essa exigncia  atingida, deixam- no 
brincar fora, ao passo que as mes dos BMR no exigem esse conhecimento muito cedo e continuam a no 
permitir que a criana brinque fora de casa at mais tarde. Outro resultado interessante foi o de que mes dos 
AMA expressam mais afeio fisicamente (atravs de abraos e beijos) como recompen 264 
265 
1! 
sa por comportamentos independentes do que as mes dos BMR. Rosen e DAndrade (1959) obtiveram 
resultados semelhantes aos de Winterbottom. 
PESQUISAS SOBRE MOTIVAO 
PARA A REALIZAO COM SUJEITOS BRASILEIROS 
Angelini (1973) relata vrias pesquisas em que ele e seus colaboradores testaram a adequao do mtodo de 
McClelland e Atkinson para uso com sujeitos brasileiros e obteve dados comprovadores da validade do 
instrumento, atravs da verificao de alteraes no escore de motivao para a realizao observadas depois 
de manipulaes experimentais anlogas s feitas por McCleIland e seus colaboradores, por exemplo, 
manipulando condies de aplicao do teste (neutras, relaxadas e eliciadoras de realizao). A fidedignidade 
das avaliaes feitas por juzes independentes tambm foi altamente satisfatria, obtendo-se coeficientes da 
ordem de 0,964 e 0,961. Alm disso, Angelini adicionou figuras mais adequadas para testar o motivo de 
realizao em sujeitos de sexo feminino. Angelini (1973) assim resume as concluses de seus estudos sobre a 
motivao para a realizao: 
a) O motivo de realizao  despertado mais por situaes onde haia envolvimento do ego do que em 
situaes neutras. 
b) O malogro em atividades prvias tende a acentuar mais o motivo de realizao; o sucesso tende a reduzi-
lo. 
c) Com envolvimento do ego suficientemente intenso, o sucesso na atividade imediatamente seguinte 
poder no reduzir totalmente o motivo de realizao, continuando este mais intenso do que em situao 
neutra. 
d) Quando se procura relacionar a clssica lei do efeito ao motivo de realizao, v-se que essa lei  
suficiente na explicao do mesmo. 
e) Os resultados do teste aplicado ao sexo feminino, inditos na literatura concernente ao mtodo, 
confirmaram os resultados obtidos no sexo masculino. 
f) Os resultados no MPAM (Medida Projetiva de Aohievement Motivation) de brasileiros e norte-
americanos, quando comparados, revelaram de modo geral no haver grandes 
266 
diferenas quanto  intensidade do motivo de realizao nesses dois grupos. Esta concluso deve ser 
tomada com reserva, pois  possvel que diferenas reais entre os grupos comparados tivessem sido 
anuladas por diferenas sistemticas que poderiam haver entre os avaliadores, cada qual pertencente  
cultura dos respectivos examinandos (Angelini, 1973). 
TENTATIVAS EXPERIMENTAIS DE MODIFICAR O NVEL 
DE MOTIVAO PARA A REALIZAO 
Pesquisadores em Psicologia do Desenvolvimento geralmente acreditam, seja baseados na teoria behaviorista 
de aprendizagem, seja na teoria psicanaltica, que os traos de personalidade, entre os quais poderiam colocar 
a motivao para a realizao, estabelecem-se bem cedo na infncia e so difceis de ser modificados 
posteriormente. McClelland (1965) chama a ateno para o fato de que dois grupos profissionais distintos 
mantm uma f incondicional na plasticidade do comportamento  os missionrios e os condicionadores 
operantes. Nesta publicao, McClelland relata experincias em que tentou manipular o nvel de motivao 
para a realizao de homens de negcios. McClelland tambm fez experimentos de motivao para a realizao 
em sujeitos de aldeias na ndia (McClelland, 1969), bem como de jovens, em contextos escolares (McClelland, 
1972b). 
Um dos trabalhos que nos parece bastante interessante para ser relatado em maior detalhe  o de Kolb (1963). 
Kolb relata um programa experimental de treinamento da motivao para a realizao, o chamado AMTP 
(Achievement Motive Training Program), conduzido na Universidade de Brown. O treinamento baseou-se 
nos seguintes conceitos tericos: 
1) Identificao: A aprendizagem ocorre atravs da imitao de modelos eficientes, sendo reforada atravs 
da experincia afetiva vicria (Bandura e Walters, 1963). 
2) Expectncia: As expectncias mantdas pelo experimentador e o sujeito, ou pelo terapeuta e o paciente, 
afetam o resultado da terapia. 
3) Respostas ideomotoras: Esta  a noo de que o pensamento determina a ao. Nesta linha terica, 
ensinar construtos 
267 
de realizao, levando o sujeito a pensar em termos de categorias de realizao, deveria lev-los a 
melhor desempenho acadmico. McClelland acredita que ensinar aos sujeitos o sistema de avaliao 
da medida projetiva de motivao para a realizao leva os sujeitos a pensarem em termos de 
categorias de realizao e conseqentemente a agir dessa forma. 
4) Jogos: Os jogos so considerados como situaes em que se pode tentar novas maneiras de 
pensar e de se comportar sem envolver os riscos da vida real. Tm sido muito usados no 
treinamento de administradores, militares, executivos e diplomatas. 
O AMTP foi realizado como parte de um programa de vero para meninos de realizao abaixo da 
esperada, na Universidade de Brown. O projeto visava dar instruo estimulante, utilizando 
professores excepcionais e contedo interessante. Utilizaram tambm modelos de identificao 
positivos, monitores ou conselheiros, todos rapazes universitrios que se distinguiam em rendimento 
escolar e atletismo. O projeto durou seis semanas, com atividades durante cinco dias por semana, 
com aulas de Histria, Matemtica e Ingls, e com recreao nos parques e praias nos fins de 
semana. Os meninos residiam em trs andares de um dormitrio da universidade e faziam as 
refeies no refeitrio. Os sujeitos da pesquisa foram 57 meninos de vrias escolas de New 
England, com 01 alto (120 ou mais) e rendimento escolar baixo (mdia C, ou menos). No foram 
aceitos sujeitos com defeitos graves de leitura nem com problemas psiquitricos srios. Os meninos 
de classe social mais alta pagaram as despesas e os de classe mais baixa receberam bolsas de 
estudo. A idade variava entre 12 e 16 anos, sendo a mdia 14 anos. Vinte dentre os 57 alunos foram 
sorteados para participar do AMTP, alm do programa regular. Os outros 37 tiveram apenas o 
programa de vero regular. Foram colhidos dados de idade, escolaridade, 01, mdia escolar, e nvel 
socioeconmico. Ambos os grupos foram submetidos a pr-testes e ps-testes de medidas de 
motivao para a realizao, rendimento escolar e escalas de ansiedade. 
O treinamento experimental consistiu de atividades baseadas nos conceitos tericos discutidos 
acima. Assim, os meninos tiveram modelos de identificao positivos, foram treinados a pensar em 
termos de categorias de realizao, partici para 
de jogos em que se enfatizou a vantagem de riscos mo derados, e a responsabilidade pessoal 
tambm foi enfatizada, tudo visando um aumento de motivao para a realizao. 
Os resultados indicaram, em linhas gerais, aumentos de motivao para a realizao, tanto no 
follow-up feito um ano depois, como no que foi feito dois anos depois. As notas escolares (mdia 
geral) aumentou significantemente mais no grupo experimental do que no grupo de controle. apenas 
no follow-up de dois anos depois. Houve aumento em algumas matrias e em outras no houve. 
Analisando-se os dados de acordo com classe social, v-se que os meninos de classe social mais 
alta lucraram mais com o AMTP do que os de classe baixa. O autor acha que o programa regular 
no foi suficiente para melhorar o rendimento escolar (o que se verifica nos resultados do grupo de 
controle um ano depois), mas que a suplementao com o AMTP parece ter causado mudanas 
mais duradouras. Outro resultado interessante foi o fato do AMTP ter tido mais resultado com os 
sujeitos de nvel socioeconmico alto.  possvel que, ao retornar a seu ambiente dirio, os jovens de 
nvel socioeconmico baixo tenham perdido o impulso, faltando-lhes o estmulo dado pela famlia. J 
os de nvel socioeconmico alto provavelmente eram estimulados pelos pais, no sentido de sarem- 
se bem nos estudos, e conseguiram assim manter os ganhos. 
O AMTP parece-nos extremamente interessante como um modelo de projeto em que se tenta 
aumentar o nvel de motivao para a realizao. Seus resultados, porm, como admite o autor, no 
deixam claro qual das tcnicas foi a responsvel pelos ganhos obtidos (uso de modelos, 
aprendizagem das categorias de realizao, utilizao de jogos, etc.) e mais pesquisas seriam 
necessrias para verificao das maneiras mais eficientes de se obter aumento da motivao para a 
realizao. 
Biaggio (1978) replicou o estudo de Kolb no Brasil, com modificaes substanciais que 
possibilitassem sua utilizao em nosso meio. Uma das modificaes centrais consistiu em substituir 
os dois meses de internato de vero em dormitrio de universidade por seis meses de sesses 
semanais no horrio do Servio de Orientao Educacional. As tarefas, embora baseadas nos 
mesmos princpios, foram tambm modificadas. Os resultados indicaram aumento da motivao de 
realizao, porm, no houve um ganho ntido nas notas escolares, o que pode ser atribudo  baixa 
fidedignidade das avaliaes escolares. 
268 
269 
Como vimos, McClelland (1961; 1971; 1978; 1982) afirma ser a motivao de realizao um trao 
inconsciente que resulta principalmente das experincias infantis de como as crianas so tratadas 
pelos pais. McClelland acredita que as primeiras experincias tm um papel amplo e perene nas 
situaes de realizao futuras. Porm muitos outros tericos no supem que a motivao de 
realizao seja estvel, da infncia at a vida adulta, e conceptualizam a motivao de realizao 
como um conjunto de crenas e valores conscientes. Essa alternativa enfatiza os efeitos das 
experincias recentes (por exemplo, a quantidade de sucesso e fracasso) nas situaes de 
realizao e os efeitos de variveis do ambiente imediato sobre as crenas relacionadas  
realizao. Assim, uma pessoa pode ter um motivo forte para ter sucesso em Histria e no em 
Matemtica, por causa de experincias nessas respectivas aulas. Essa segunda concepo, mais 
atual, implica em que os professores tm oportunidades considerveis (e portanto maior 
responsabilidade) para maximizar a motivao de rea1 izao. 
Stipek (1987) discute as contribuies da teoria do reforo e d exemplos da aplicao de princpios 
de reforo para maximizar o esforo dos alunos na sala de aula. Discute tambm os possveis 
efeitos negativos de se basear exclusivamente no reforo extrnseco, bem como o uso do elogio e o 
papel das cognies como mediadoras dos efeitos do reforo sobre o comportamento. 
Discute noes de motivao intrnseca como os conceitos de competncia de White (1959), de 
curiosidade, e ainda noes da teoria de Piaget a respeito da satisfao que a criana sente ao 
realizar tarefas. Nesse importante livro, Stipek discorre sobre as teorias de motivao de realizao, 
incluindo no apenas as tradicionais de McClelland e Atkinson, como o conceito de locus de controle 
de Rotter (1966). (Ver tambm Biaggio, 1985) e a teoria de atribuio de causalidade de Weiner 
(1985). Finaliza com o conceito de autopercepo da capacidade, no contexto da teoria de auto-
eficcia de Bandura (1977; 1982), tratando ainda do problema da ansiedade infantil com relao  
realizao ou desempenho. Vemos assim que motivao de realizao  um tema que vai muito 
mais alm da contribuio de McClelland, focalizada neste captulo. Um tratamento mais amplo do 
tema escapa porm aos objetivos deste livro. 
